O país que começa nos livros infantis

Cuota:

2 de abril de 2026

O país que começa nos livros infantis

Por Sevani Matos e Hubert Alquéres

O encontro inicial com os livros é um dos momentos mais decisivos na formação de qualquer leitor, mas no Brasil ainda está longe de ser uma realidade universal.

É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras.

A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa. É nesse momento que se desenvolvem habilidades decisivas, como a linguagem, a imaginação e a capacidade de atribuir sentido à experiência. Mais do que introduzir a leitura, ela estabelece fundamentos que acompanham o indivíduo ao longo de toda a vida.

No Brasil, porém, essa realidade segue longe de ser universal. Milhões de crianças crescem sem acesso regular a livros, sem bibliotecas estruturadas e sem mediação qualificada. Trata-se de um déficit silencioso, que compromete desde cedo a trajetória dos estudantes, revela uma fragilidade estrutural do nosso sistema de educação e ajuda a explicar, em parte, os baixos níveis de letramento observados ao longo da vida escolar.

Garantir o acesso ao livro desde a infância é, portanto, uma condição necessária, mas não suficiente. Mais do que iniciativas isoladas, o país carece de uma articulação institucional capaz de dar escala, continuidade e coerência a essas ações. A formação de leitores não se sustenta apenas por esforços fragmentados, ainda que bem-intencionados. Exige estruturas capazes de integrar produção, circulação e mediação de forma consistente. Programas surgem e desaparecem, políticas não se consolidam e a formação de leitores permanece dispersa, incapaz de produzir efeitos duradouros.

Além disso, o acesso ao livro infantil ainda reflete as desigualdades do país. Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras têm contato com eles apenas de forma episódica, quando o têm. Isso tende a se ampliar ao longo da vida escolar, produzindo trajetórias cada vez mais desiguais.

Nesse processo, a qualidade importa. Escrever para crianças exige rigor, sensibilidade e domínio da linguagem. Ilustrar, por sua vez, é um ato de criação que demanda repertório, técnica e intencionalidade. Texto e imagem não ocupam lugares hierárquicos: constroem juntos a narrativa, ampliam significados e criam camadas de leitura. Valorizar a produção de livros infantis é, portanto, reconhecer a literatura e a ilustração como dimensões indissociáveis de uma mesma experiência criativa e, no caso brasileiro, reconhecer também a força de uma produção que alcançou alta qualidade e projeção internacional.

O setor do livro infantil, que envolve autores, ilustradores, editoras, livrarias, escolas e bibliotecas, forma um ecossistema complexo, que exige coordenação e visão integrada para funcionar plenamente. No entanto, sem acesso consistente e mediação qualificada, esse sistema não alcança plenamente quem mais precisa.

A mediação, aliás, é um ponto central. A formação de leitores não acontece de forma espontânea. Professores, bibliotecários e famílias são responsáveis por aproximar a criança do livro, criar contextos de leitura e transformar o acesso em experiência significativa. É nesse encontro que a leitura deixa de ser possibilidade e se torna prática.

Por meio dos livros, a criança amplia seu repertório e entra em contato com diferentes realidades, experiências e perspectivas. A leitura permite reconhecer o outro, compreender diferenças e desenvolver empatia. Ao mesmo tempo, contribui para a construção de um universo que sustenta o pensamento e a criatividade.

Também é fundamental que as crianças tenham acesso a livros que representem a diversidade de experiências, territórios e identidades que compõem a sociedade. A literatura infantil contribui para o desenvolvimento do senso de pertencimento e para o reconhecimento da pluralidade que caracteriza o mundo contemporâneo.

Em um contexto de múltiplos estímulos e formas de acesso à informação, o livro segue sendo uma ferramenta insubstituível. Mais do que disputar espaço, a literatura infantil reafirma sua relevância ao oferecer uma experiência de leitura profunda, estruturada e formadora.

Celebrar o Dia Mundial do Livro Infantil, em 2 de abril, data de nascimento de Hans Christian Andersen, não deve ser apenas marcar uma data. É enfrentar uma escolha. Investir no acesso, na qualidade e na mediação dos livros para crianças exige não apenas recursos, mas capacidade de organização e articulação em escala, algo que o país ainda não conseguiu estruturar de forma consistente.

Sociedades que não formam leitores desde a infância dificilmente formam cidadãos capazes de compreender, participar e transformar a realidade. E é nas primeiras histórias, feitas de palavras e imagens, que começam, silenciosamente, as possibilidades de futuro de um país.

Sevani Matos é presidente da Câmara Brasileira do Livro e

Hubert Alquéres é Curador do Prêmio Jabuti

Categoria: 

¿Te gustó el contenido?

Comparte ahora mismo

Cuota:

Newsletter

¡Suscríbete y recibe novedades en tu email!

    CBL se compromete a respetar su privacidad, utilizaremos sus datos con fines de marketing. Puede cambiar sus preferencias en cualquier momento.

    Sigue a @cbloficial en las redes sociales

    Resumen de privacidad

    Esta web utiliza cookies para que podamos ofrecerte la mejor experiencia de usuario posible. La información de las cookies se almacena en tu navegador y realiza funciones tales como reconocerte cuando vuelves a nuestra web o ayudar a nuestro equipo a comprender qué secciones de la web encuentras más interesantes y útiles.