O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça

Cuota:

27 de mayo de 2026

O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça

Por Hubert Alquéres

 

Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica.

Publicado em 1976, em pleno regime militar, A Bolsa Amarela ajudou a transformar a literatura infantil no Brasil. Lygia Bojunga pertence a uma geração de autores, como Ana Maria Machado ou Ruth Rocha, que rompeu com a ideia de que livros destinados a crianças deveriam ser apenas moralizantes ou pedagógicos. Sua literatura introduziu densidade emocional, imaginação, medo, inadequação, desejo de liberdade e conflitos interiores como elementos legítimos da experiência infantil. Não por acaso, tornou-se a primeira autora brasileira a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil.

É justamente aí que reside a principal contradição do episódio. O problema não parece estar no livro, mas na forma como ele passou a ser lido. Literatura não é cartilha ideológica. Personagens não são panfletos. Conflitos narrativos não equivalem automaticamente à defesa de comportamentos ou agendas políticas. Quando uma obra literária passa a ser examinada apenas como instrumento de vigilância moral, perde-se a capacidade de compreender o que distingue literatura de propaganda.

A questão ultrapassa, portanto, o debate específico sobre gênero. O que está em jogo é algo mais amplo: a dificuldade crescente de lidar com ambiguidades, metáforas, e conflitos próprios da literatura. Em vez de formar leitores capazes de interpretar criticamente textos complexos, cria-se uma cultura de leitura policialesca, na qual livros passam a ser investigados em busca de desvios ideológicos.

O paradoxo histórico é inevitável. A Bolsa Amarela surgiu em pleno regime militar, nunca foi censurada e logo consolidou-se como um clássico da literatura infantil brasileira. Décadas depois, passa a ser alvo de suspeita não por crítica política explícita, mas porque parte da sociedade passou a enxergar ameaças ideológicas até mesmo em narrativas voltadas à imaginação infantil.

Naturalmente, escolas e famílias têm o direito, e até o dever, de discutir adequação etária, mediação pedagógica e critérios de escolha de obras literárias. Esse debate é legítimo. O problema começa quando a reação abandona o terreno pedagógico e passa a tratar a literatura como objeto de interdição moral ou suspeita política.

Não é a primeira vez que obras literárias se transformam em objetos de suspeita. Isso quase nunca fortaleceu a educação ou a cultura. A literatura infantil séria nunca tratou apenas de histórias leves ou edificantes. Ela também aborda medos, frustrações, inadequações e descobertas.

Proteção excessiva pode produzir exatamente o oposto do que pretende: jovens menos preparados para lidar com complexidade, diferença e pensamento crítico.

Talvez o aspecto mais preocupante do episódio seja outro. Uma sociedade começa a empobrecer culturalmente quando perde a capacidade de distinguir livros de panfletos.

Quando clássicos da imaginação infantil passam a ser tratados como ameaça ideológica, talvez o problema já não esteja nos livros.

___________________________________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.

Categoria: 

¿Te gustó el contenido?

Comparte ahora mismo

Cuota:

Newsletter

¡Suscríbete y recibe novedades en tu email!

    CBL se compromete a respetar su privacidad, utilizaremos sus datos con fines de marketing. Puede cambiar sus preferencias en cualquier momento.

    Sigue a @cbloficial en las redes sociales

    Resumen de privacidad

    Esta web utiliza cookies para que podamos ofrecerte la mejor experiencia de usuario posible. La información de las cookies se almacena en tu navegador y realiza funciones tales como reconocerte cuando vuelves a nuestra web o ayudar a nuestro equipo a comprender qué secciones de la web encuentras más interesantes y útiles.