{"id":63235,"date":"2023-05-31T11:20:23","date_gmt":"2023-05-31T14:20:23","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/?post_type=artigos&#038;p=63235"},"modified":"2023-06-27T11:21:54","modified_gmt":"2023-06-27T14:21:54","slug":"o-fantasma-de-fahrenheit","status":"publish","type":"artigos","link":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/artigos\/o-fantasma-de-fahrenheit\/","title":{"rendered":"O fantasma de Fahrenheit"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><b>Por Hubert Alqu\u00e9res <\/b><\/em><b><\/p>\n<p><\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De tempos em tempos a realidade imita a fic\u00e7\u00e3o.\u00a0 A recente onda de censura a livros em escolas e bibliotecas dos Estados Unidos nos faz lembrar da sociedade dist\u00f3pica e autorit\u00e1ria do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Na sociedade imagin\u00e1ria livros s\u00e3o proibidos e queimados pelo governo, com o objetivo de controlar o pensamento e a opini\u00e3o p\u00fablica. Publicado em 1953, Fahrenheit tornou-se um cl\u00e1ssico da literatura. \u00c0 \u00e9poca, foi acusado de \u201cinfluenciar negativamente a juventude\u201d. Seu autor tornou-se suspeito de atividades antiamericanas, nos tempos do macarthismo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As piras contempor\u00e2neas nas quais ardem livros proibidos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas utilizadas pelo bombeiro Guy Montag, protagonista do Fahrenheit 451. Mas, como na fic\u00e7\u00e3o, vivemos tempos de distopias, impulsionadas pela polariza\u00e7\u00e3o e por ondas de fundamentalismo religioso, xenofobia, racismo e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Fahrenheit continua entre n\u00f3s. Inclusive no ber\u00e7o da democracia moderna, primeiro pa\u00eds a consignar na sua Constitui\u00e7\u00e3o os valores dos iluministas. Entre eles a liberdade de express\u00e3o e de pensamento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a American Library Association, os pedidos de retirada de livros de escolas e bibliotecas em 2022 alcan\u00e7aram o maior n\u00famero nos \u00faltimos 20 anos. Esse dado \u00e9 corroborado pela ONG Am\u00e9rica Pen, segundo a qual no ano letivo de 2021-2022 mais de 2.500 proibi\u00e7\u00f5es de livros foram emitidas por distritos escolares em 32 estados americanos.\u00a0 Atingiram um universo de cinco mil escolas e quatro milh\u00f5es de alunos.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maioria das proibi\u00e7\u00f5es envolve obras que abordam quest\u00f5es de identidade sexual ou racial, como \u00e9 o caso do livro \u201cNem todos os garotos s\u00e3o azuis\u201d, de George M. Johnson. No topo dos livros mais censurados nas escolas e bibliotecas est\u00e1 o HQ \u201cG\u00eanero Queer\u201d.\u00a0 Cl\u00e1ssicos como \u201cO olho mais azul\u201d e \u201cO sol \u00e9 para todos\u201d tamb\u00e9m entraram no index da nova onda macarthista.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A explos\u00e3o das proibi\u00e7\u00f5es de livros teve um crescimento de 40% em um ano nos Estados Unidos. Tornou-se uma quest\u00e3o nacional, invadindo a agenda da disputa presidencial. O presidente Joe Biden acusa seus advers\u00e1rios de atuarem como Girolamo Savonarola, padre dominicano que na Firenze renascentista queimou obras de Dante, Ov\u00eddio e de Boticelli. Biden n\u00e3o deixa de ter raz\u00e3o. A maioria dos pedidos de proibi\u00e7\u00e3o a livros vem de c\u00edrculos reacion\u00e1rios pr\u00f3ximos ao trumpismo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivamente americano e pode chegar at\u00e9 n\u00f3s. Ali\u00e1s, j\u00e1 chegou.\u00a0 A Universidade Rio Verde, de Goi\u00e1s, retirou de sua lista de obras liter\u00e1rias recomendadas o livro \u201cEu receberia as piores not\u00edcias dos seus lindos l\u00e1bios\u201d por press\u00e3o do deputado Gustavo Gayer, do Partido Liberal. Como presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, no governo passado, S\u00e9rgio Camargo quis retirar do acervo da Funda\u00e7\u00e3o mais de 300 obras sob o argumento de que tinham tra\u00e7os \u201cmarxistas, bandid\u00f3latras, pervers\u00e3o sexual e bizarrias\u201d. Na mesma linha, o ent\u00e3o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella em 2019 mandou retirar da Feira Bienal do Livro o HQ \u201cVingadores: a cruzada das crian\u00e7as\u201d, por trazer na capa dois rapazes se beijando.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A nova onda de ca\u00e7a \u00e0s bruxas nos remete a tristes p\u00e1ginas da hist\u00f3ria da humanidade. A destrui\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias \u00e9 t\u00e3o antiga como o pr\u00f3prio livro. A rigor, antecede \u00e0 grande inven\u00e7\u00e3o de Gutemberg, a imprensa, que democratizou o acesso ao conhecimento, \u00e0 cultura e, em especial, \u00e0 literatura. Tabletas de argila, papiros e pergaminhos foram destru\u00eddos ao longo dos s\u00e9culos, por guerras ou por quest\u00f5es de natureza moral, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica ou religiosa. As sucessivas destrui\u00e7\u00f5es da Biblioteca de Alexandria \u2013 com um acervo de mais de um milh\u00e3o de livros \u2013 fez desaparecer um acervo da literatura antiga inestim\u00e1vel.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fahrenheit 451 j\u00e1 existia s\u00e9culos e s\u00e9culos antes de se transformar em uma grande obra. O poeta alem\u00e3o Heinrich Heine (1797- 1856) j\u00e1 dizia: \u201cOs que queimam livros acabam queimando homens\u201d. Hitler \u00e9 o maior exemplo.\u00a0 Em dez de maio de 1931 piras de livros ardiam em 22 cidades alem\u00e3s. Para n\u00e3o terem o mesmo destino dos milh\u00f5es de judeus mortos em c\u00e2maras de g\u00e1s e incinerados nos fornos de campos de concentra\u00e7\u00e3o, escritores como Bertolt Brecht, os irm\u00e3os Thomas e Henrich Mann, Ernest Toller, cujos livros arderam nas fogueiras nazistas, tiveram de deixar a Alemanha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Savonarola entendia o Renascimento como s\u00edmbolo da frouxid\u00e3o moral e da degeneresc\u00eancia. Para livrar Firenze de seus males, patrocinou em 7 de fevereiro de 1497 a mais tr\u00e1gica de suas \u201cfogueiras da vaidade\u201d, queimando livros e obras de artes que, segundo ele, incitavam o pecado da verdade. \u00a0 Depois, a Igreja mandou queimar todos os escritos e serm\u00f5es de Savonarola. E ap\u00f3s ser condenado \u00e0 forca, seu cad\u00e1ver foi consumido nas mesmas chamas a que ele tinha condenado tantas obras liter\u00e1rias.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A censura, a proibi\u00e7\u00e3o, a destrui\u00e7\u00e3o ou a queima de livros n\u00e3o s\u00e3o um monop\u00f3lio de regimes autorit\u00e1rios.\u00a0 Mesmo os Estados Unidos, pa\u00eds exemplo de democracia, tem em sua hist\u00f3ria p\u00e1ginas da qual n\u00e3o tem motivos para se orgulhar. Em 1956 a ag\u00eancia americana FDA iniciou um processo para proibir a venda de livros do psiquiatra e sex\u00f3logo austro-americano Wilhelm Heich.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como consequ\u00eancia, alguns livros de Reich foram confiscados e destru\u00eddos. Entre eles o cl\u00e1ssico \u201cA fun\u00e7\u00e3o do orgasmo\u201d. Nem mesmo a obra prima-prima de James Joyce, Ulysses, escapou da censura. Em 1922 sua publica\u00e7\u00e3o e venda foram proibidas porque, segundo os censores, tinha teor obsceno, \u201cal\u00e9m de conter pornografia e blasf\u00eamias\u201d. S\u00f3 em 1933 o livro foi liberado por decis\u00e3o judicial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dos maiores romances russos do s\u00e9culo vinte, o \u00e9pico \u201cVida e Destino\u201d, de Vassili Grossman, escrito em 1962, s\u00f3 seria publicado na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica mais de 40 anos depois, j\u00e1 nos estertores da \u201cp\u00e1tria-m\u00e3e do socialismo\u201d, quando seu autor j\u00e1 tinha morrido. Segundo Mikhail Suslov, ide\u00f3logo do Partido Comunista sovi\u00e9tico desde o fim da segunda guerra, \u201cVida e Destino\u201d s\u00f3 poderia ser publicado \u201cdaqui a 250 anos\u201d pelas amea\u00e7as que representava ao regime.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando se transformam em ideologia e pol\u00edtica de estado em regimes totalit\u00e1rios, a persegui\u00e7\u00e3o a escritores e a destrui\u00e7\u00e3o de livros nos faz retroagir a barb\u00e1rie.\u00a0 A pretexto de se livrar de \u201cQuatro velhos \u2013 velhas ideias, velhas culturas, velhos costumes e velhos h\u00e1bitos\u201d, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural de Mao Ts\u00e9 Tung mandou queimar todos os textos sagrados e toda literatura ocidental.\u00a0 No Camboja do Kmer Vermelho a Biblioteca Nacional de Phnom Penh foi destru\u00edda e em sua porta penduraram um letreiro: \u201cN\u00e3o temos livros. O governo do povo triunfou\u201d. \u00c9 Fahrenheit em estado puro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Que seu fantasma deixe de rondar o mundo. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<p><b>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 vice-presidente da CBL e curador do Pr\u00eamio Jabuti. Foi Secret\u00e1rio Estadual de Educa\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo.<\/b><\/p>","protected":false},"featured_media":63236,"template":"","class_list":["post-63235","artigos","type-artigos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/artigos\/63235","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/artigos"}],"about":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/artigos"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63236"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63235"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}