{"id":50886,"date":"2018-10-22T00:00:00","date_gmt":"2018-10-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/2018\/10\/22\/para-presidente-da-cbl-falta-de-leitura-favorece-noticias-falsas\/"},"modified":"2022-05-26T15:41:14","modified_gmt":"2022-05-26T18:41:14","slug":"para-presidente-da-cbl-falta-de-leitura-favorece-noticias-falsas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/2018\/10\/para-presidente-da-cbl-falta-de-leitura-favorece-noticias-falsas\/","title":{"rendered":"Para presidente da CBL, falta de leitura favorece not\u00edcias falsas"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>\n<p><b>Ag\u00eancia Br\u00a0 e ISTO\u00c9 - 22\/10\/2018<\/b><span style=\"font-family: Verdana; font-size: small;\">Na noite do pr\u00f3ximo dia 8 de novembro, no Audit\u00f3rio do Ibirapuera, em S\u00e3o Paulo, ser\u00e1 realizada a 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti\u00a0\u2013 considerado o principal reconhecimento e a mais tradicional honraria aos\u00a0livros\u00a0e aos escritores no Brasil.<\/span><\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de um evento liter\u00e1rio por seis d\u00e9cadas no pa\u00eds \u00e9 um marco. De acordo com a pesquisa Retrato da Leitura, 44% da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o l\u00ea e 30% nunca comprou umlivro. O Banco Mundial estima, com base no Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos (Pisa), que os estudantes brasileiros podem demorar mais de dois s\u00e9culos e meio para ter a mesma profici\u00eancia em leitura dos alunos dos pa\u00edses ricos. Segundo a Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Pesquisas Econ\u00f4micas (Fipe), o mercado editorial encolheu 21% entre 2006 e 2017.<\/p>\n<p>O primeiro\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti, entregue em 1959, foi concedido para a obra \u201cGabriela Cravo e Canela\u201d, do escritor Jorge Amado que, anos antes, na ditadura do Estado Novo (1937-1945), teve seus\u00a0livros\u00a0queimados em pra\u00e7a p\u00fablica. A obra do escritor baiano foi o primeiro\u00a0livrolido pelo menino Lu\u00eds Antonio Torelli, hoje editor e presidente da\u00a0C\u00e2mara\u00a0Brasileira\u00a0do\u00a0Livro(CBL), entidade respons\u00e1vel pelo\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, Torelli falou sobre a premia\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia da leitura para a sociedade e sugeriu a amplia\u00e7\u00e3o de iniciativas que tenham como foco as bibliotecas. \u201cNum pa\u00eds com poucas livrarias e com pouco acesso ao\u00a0livro, fica quase imposs\u00edvel ter um programa de forma\u00e7\u00e3o de leitores se as pessoas n\u00e3o t\u00eam onde buscar o\u00a0livro. As bibliotecas cumprem essa lacuna. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 construir. Precisa de um acervo que convide e que seja atraente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O especialista destacou ainda a import\u00e2ncia da leitura e do conhecimento para o combate \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas (fake news). \u201cAs pessoas formam opini\u00e3o sem checar o que recebem, a origem dos dados ou quem \u00e9 que est\u00e1 publicando. Quando voc\u00ea tem um pouco de conte\u00fado, proporcionado pela leitura, v\u00ea que aquilo n\u00e3o tem nenhum fundamento.\u201d<\/p>\n<p>Veja abaixo os principais trechos da entrevista concedida pelo especialista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil:<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O que destaca nesta 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Antonio Torelli: O\u00a0pr\u00eamio\u00a0sofreu uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as com a inten\u00e7\u00e3o de acompanhar o mercado editorial, os interesses dos leitores, e para que continue tendo a relev\u00e2ncia que sempre teve. Juntos com o curador, Luiz Armando Bagolin [do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)], fizemos uma condensa\u00e7\u00e3o das categorias [eram 29, agora s\u00e3o 18]. Outra novidade \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 mais preciso mandar os\u00a0livros\u00a0f\u00edsicos para c\u00e1, pode ser feito por meio eletr\u00f4nico (em arquivo PDF). Isso era um impedimento para que pequenas editoras e autores pudessem participar, por causa dos custos de postagem. Com isso, conseguimos ter este ano sete autores independentes finalistas do Jabuti. Conseguimos uma valora\u00e7\u00e3o maior para o\u00a0pr\u00eamio. O\u00a0Livro\u00a0do Ano ter\u00e1 o\u00a0pr\u00eamio\u00a0de R$ 100 mil, era R$ 35 mil, al\u00e9m dos R$ 5 mil para cada vencedor das 18 categorias. Agora, concorrem ao grande\u00a0pr\u00eamio\u00a0aqueles que estejam no eixo literatura ou no eixo ensaios. A festa de premia\u00e7\u00e3o vai ser mais din\u00e2mica e mais r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Em 60 anos, o\u00a0pr\u00eamio\u00a0conseguiu acompanhar as mudan\u00e7as na literatura brasileira, estar na vanguarda e reconhecer novos talentos?<\/p>\n<p>Torelli: A ideia \u00e9 dar visibilidade aos nossos autores e mostrar a nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. OPr\u00eamio\u00a0Jabuti\u00a0contempla isso porque tem amplitude maior do que outras premia\u00e7\u00f5es. Com as mudan\u00e7as, ficar\u00e1 mais f\u00e1cil dar oportunidades a novos talentos em todas as categorias. Qualquer editora com t\u00edtulo selecionado faz quest\u00e3o de declarar que o autor \u00e9 um indicado ou vencedor do Jabuti.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: No exterior, quem mais se interessa por\u00a0livros\u00a0brasileiros?<\/p>\n<p>Torelli: Na Feira de Frankfurt [Alemanha], encerrada no \u00faltimo dia 15, nos chamou muito a aten\u00e7\u00e3o a quantidade de chineses que foram ao netmaker que promovemos. Foram 48 editoras chinesas, dos mais variados tipos, procurando t\u00edtulos brasileiros. Os alem\u00e3es t\u00eam um interesse bastante grande na nossa produ\u00e7\u00e3o. Os \u00e1rabes, tamb\u00e9m. E ainda, o pessoal da Am\u00e9rica do Sul com quem fazemos um contraponto. Na Feira de Guadalajara [M\u00e9xico, em novembro e dezembro de 2017], n\u00f3s recebemos a visita de um grupo de bibliotec\u00e1rios norte-americanos que compraram muitos\u00a0livros\u00a0em portugu\u00eas sobre o folclore brasileiro, sobre candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Durante esses 60 anos do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti, o Brasil se transformou do ponto de vista econ\u00f4mico e social. Por que ainda lemos pouco?<\/p>\n<p>Torelli: A gente nunca colocou a educa\u00e7\u00e3o e a leitura como metas do Estado. A sociedade trata a leitura como algo escravizante. Lembro desde minha \u00e9poca na escola que a rela\u00e7\u00e3o com o\u00a0livro\u00a0\u00e9 uma cobran\u00e7a. Outro problema grave \u00e9 que nossos professores leem muito pouco, tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam o h\u00e1bito da leitura. N\u00e3o se cria nas universidades m\u00e9todos e formas para que o professor consiga colocar o\u00a0livro\u00a0em sala de aula de maneira agrad\u00e1vel. As aulas de literatura s\u00e3o chatas, desculpe a express\u00e3o. Eles n\u00e3o t\u00eam esse foco.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O que \u00e9 o projeto Itiner\u00e1rios da Leitura da\u00a0CBL?<\/p>\n<p>Torelli: Na Bienal do\u00a0Livro\u00a0de S\u00e3o Paulo de 2018, n\u00f3s lan\u00e7amos o projeto Itiner\u00e1rios da Leitura. Uma iniciativa para apoiar o professor a estimular a leitura em sala de aula desde a inf\u00e2ncia, para formar o leitor de forma mais contundente e mais r\u00e1pida. \u00c9 na idade escolar que \u00e9 mais poss\u00edvel criar o h\u00e1bito de ler. Depois da influ\u00eancia da m\u00e3e em casa, \u00e9 o professor na escola a principal figura para incentivar a leitura. O projeto est\u00e1 no nosso site. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o documento sirva de refer\u00eancia para iniciativas de est\u00edmulo \u00e0 leitura. Vamos ver se conseguimos levar a ideia ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo governo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Que import\u00e2ncia tem estimular o h\u00e1bito de ler?<\/p>\n<p>Torelli: A leitura \u00e9 transformadora. N\u00e3o d\u00e1 para falar em educa\u00e7\u00e3o sem falar em leitura e vice-versa. Os testes internacionais de ci\u00eancia, matem\u00e1tica e leitura mostram o Brasil l\u00e1 na rabeira. As provas mostram claramente que os nossos alunos n\u00e3o conseguem interpretar um texto simples. Isso \u00e9 falta de treinamento de leitura. \u00c9 coisa que o pa\u00eds precisava se preocupar bastante. Eu, sinceramente, n\u00e3o escutei no discurso dos nossos presidenci\u00e1veis nenhuma refer\u00eancia a isso.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O senhor teria alguma sugest\u00e3o ao pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica ou ao ministro da Educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Torelli: Se eu pudesse fazer alguma recomenda\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3ximo governo seria olhar mais atentamente para as bibliotecas. Num pa\u00eds com poucas livrarias e com pouco acesso ao\u00a0livro, fica quase imposs\u00edvel ter um programa de forma\u00e7\u00e3o de leitores se as pessoas n\u00e3o t\u00eam onde buscar o\u00a0livro. As bibliotecas cumprem essa lacuna. Minha humilde sugest\u00e3o ao pr\u00f3ximo governo \u00e9 \u2018vamos olhar mais para as bibliotecas\u2019. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 construir. Precisa de um acervo que convide e que seja atraente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: A falta do h\u00e1bito de leitura favorece a circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas?<\/p>\n<p>Torelli: Pesa muito. A leitura te d\u00e1 conhecimento e conte\u00fado. Na Bienal do\u00a0Livro, diz\u00edamos \u2018venha fazer um download do conhecimento\u2019. Quando voc\u00ea l\u00ea um\u00a0livro\u00a0para se aprofundar em um tema ou para passar o tempo sabe que as obras t\u00eam DNA, o ISBN [International Standard Book Number], uma editora, um autor conhecido. Essas not\u00edcias que lemos no WhatsApp muitas vezes n\u00e3o t\u00eam autoria, n\u00e3o t\u00eam fonte confi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 apenas ler, mas saber o que est\u00e1 lendo. A gente est\u00e1 vendo isso nessas elei\u00e7\u00f5es. Verdadeiras barbaridades. As pessoas formam opini\u00e3o sem checar o que recebem, a origem dos dados ou quem \u00e9 que est\u00e1 publicando. Quando voc\u00ea tem um pouco de conte\u00fado, proporcionado pela leitura, v\u00ea que aquilo n\u00e3o tem nenhum fundamento.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Junto com as not\u00edcias falsas tamb\u00e9m circula intoler\u00e2ncia. H\u00e1 intoler\u00e2ncia contra os\u00a0livros?<\/p>\n<p>Torelli: N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contra os\u00a0livros, mas intoler\u00e2ncia de forma geral. Pela facilidade que h\u00e1 para publicar pelas m\u00eddias sociais, h\u00e1 opini\u00e3o para tudo, \u00e0s vezes, com base em absurdos. Quando vejo alguma coisa estranha sobre os candidatos pergunto: \u2018mas voc\u00ea leu isso?\u2019. A resposta costuma ser \u2018n\u00e3o li, mas ouvi a respeito\u2019. A intoler\u00e2ncia com\u00a0livros\u00a0\u00e9 coisa que precisamos ficar muito atentos. O\u00a0livro\u00a0\u00e9 quem nos traz o conhecimento, a informa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea compra o que voc\u00ea quiser e l\u00ea o que quiser. O Estado n\u00e3o tem que ter esse tipo de interfer\u00eancia. Por que o Estado tem que dizer o que eu posso e o que eu n\u00e3o posso ler? A liberdade de express\u00e3o \u00e9 fundamental. Nenhum pa\u00eds cresce, nenhum povo evolui com qualquer restri\u00e7\u00e3o a isso. O\u00a0livro\u00a0materializa a liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>\n<p><b>Ag\u00eancia Br\u00a0 e ISTO\u00c9 - 22\/10\/2018<\/b><span style=\"font-family: Verdana; font-size: small;\">Na noite do pr\u00f3ximo dia 8 de novembro, no Audit\u00f3rio do Ibirapuera, em S\u00e3o Paulo, ser\u00e1 realizada a 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti\u00a0\u2013 considerado o principal reconhecimento e a mais tradicional honraria aos\u00a0livros\u00a0e aos escritores no Brasil.<\/span><\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o de um evento liter\u00e1rio por seis d\u00e9cadas no pa\u00eds \u00e9 um marco. De acordo com a pesquisa Retrato da Leitura, 44% da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o l\u00ea e 30% nunca comprou umlivro. O Banco Mundial estima, com base no Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos (Pisa), que os estudantes brasileiros podem demorar mais de dois s\u00e9culos e meio para ter a mesma profici\u00eancia em leitura dos alunos dos pa\u00edses ricos. Segundo a Funda\u00e7\u00e3o Instituto de Pesquisas Econ\u00f4micas (Fipe), o mercado editorial encolheu 21% entre 2006 e 2017.<\/p>\n<p>O primeiro\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti, entregue em 1959, foi concedido para a obra \u201cGabriela Cravo e Canela\u201d, do escritor Jorge Amado que, anos antes, na ditadura do Estado Novo (1937-1945), teve seus\u00a0livros\u00a0queimados em pra\u00e7a p\u00fablica. A obra do escritor baiano foi o primeiro\u00a0livrolido pelo menino Lu\u00eds Antonio Torelli, hoje editor e presidente da\u00a0C\u00e2mara\u00a0Brasileira\u00a0do\u00a0Livro(CBL), entidade respons\u00e1vel pelo\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, Torelli falou sobre a premia\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia da leitura para a sociedade e sugeriu a amplia\u00e7\u00e3o de iniciativas que tenham como foco as bibliotecas. \u201cNum pa\u00eds com poucas livrarias e com pouco acesso ao\u00a0livro, fica quase imposs\u00edvel ter um programa de forma\u00e7\u00e3o de leitores se as pessoas n\u00e3o t\u00eam onde buscar o\u00a0livro. As bibliotecas cumprem essa lacuna. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 construir. Precisa de um acervo que convide e que seja atraente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O especialista destacou ainda a import\u00e2ncia da leitura e do conhecimento para o combate \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas (fake news). \u201cAs pessoas formam opini\u00e3o sem checar o que recebem, a origem dos dados ou quem \u00e9 que est\u00e1 publicando. Quando voc\u00ea tem um pouco de conte\u00fado, proporcionado pela leitura, v\u00ea que aquilo n\u00e3o tem nenhum fundamento.\u201d<\/p>\n<p>Veja abaixo os principais trechos da entrevista concedida pelo especialista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil:<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O que destaca nesta 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti?<\/p>\n<p>Lu\u00eds Antonio Torelli: O\u00a0pr\u00eamio\u00a0sofreu uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as com a inten\u00e7\u00e3o de acompanhar o mercado editorial, os interesses dos leitores, e para que continue tendo a relev\u00e2ncia que sempre teve. Juntos com o curador, Luiz Armando Bagolin [do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)], fizemos uma condensa\u00e7\u00e3o das categorias [eram 29, agora s\u00e3o 18]. Outra novidade \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 mais preciso mandar os\u00a0livros\u00a0f\u00edsicos para c\u00e1, pode ser feito por meio eletr\u00f4nico (em arquivo PDF). Isso era um impedimento para que pequenas editoras e autores pudessem participar, por causa dos custos de postagem. Com isso, conseguimos ter este ano sete autores independentes finalistas do Jabuti. Conseguimos uma valora\u00e7\u00e3o maior para o\u00a0pr\u00eamio. O\u00a0Livro\u00a0do Ano ter\u00e1 o\u00a0pr\u00eamio\u00a0de R$ 100 mil, era R$ 35 mil, al\u00e9m dos R$ 5 mil para cada vencedor das 18 categorias. Agora, concorrem ao grande\u00a0pr\u00eamio\u00a0aqueles que estejam no eixo literatura ou no eixo ensaios. A festa de premia\u00e7\u00e3o vai ser mais din\u00e2mica e mais r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Em 60 anos, o\u00a0pr\u00eamio\u00a0conseguiu acompanhar as mudan\u00e7as na literatura brasileira, estar na vanguarda e reconhecer novos talentos?<\/p>\n<p>Torelli: A ideia \u00e9 dar visibilidade aos nossos autores e mostrar a nossa produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. OPr\u00eamio\u00a0Jabuti\u00a0contempla isso porque tem amplitude maior do que outras premia\u00e7\u00f5es. Com as mudan\u00e7as, ficar\u00e1 mais f\u00e1cil dar oportunidades a novos talentos em todas as categorias. Qualquer editora com t\u00edtulo selecionado faz quest\u00e3o de declarar que o autor \u00e9 um indicado ou vencedor do Jabuti.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: No exterior, quem mais se interessa por\u00a0livros\u00a0brasileiros?<\/p>\n<p>Torelli: Na Feira de Frankfurt [Alemanha], encerrada no \u00faltimo dia 15, nos chamou muito a aten\u00e7\u00e3o a quantidade de chineses que foram ao netmaker que promovemos. Foram 48 editoras chinesas, dos mais variados tipos, procurando t\u00edtulos brasileiros. Os alem\u00e3es t\u00eam um interesse bastante grande na nossa produ\u00e7\u00e3o. Os \u00e1rabes, tamb\u00e9m. E ainda, o pessoal da Am\u00e9rica do Sul com quem fazemos um contraponto. Na Feira de Guadalajara [M\u00e9xico, em novembro e dezembro de 2017], n\u00f3s recebemos a visita de um grupo de bibliotec\u00e1rios norte-americanos que compraram muitos\u00a0livros\u00a0em portugu\u00eas sobre o folclore brasileiro, sobre candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Durante esses 60 anos do\u00a0Pr\u00eamio\u00a0Jabuti, o Brasil se transformou do ponto de vista econ\u00f4mico e social. Por que ainda lemos pouco?<\/p>\n<p>Torelli: A gente nunca colocou a educa\u00e7\u00e3o e a leitura como metas do Estado. A sociedade trata a leitura como algo escravizante. Lembro desde minha \u00e9poca na escola que a rela\u00e7\u00e3o com o\u00a0livro\u00a0\u00e9 uma cobran\u00e7a. Outro problema grave \u00e9 que nossos professores leem muito pouco, tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam o h\u00e1bito da leitura. N\u00e3o se cria nas universidades m\u00e9todos e formas para que o professor consiga colocar o\u00a0livro\u00a0em sala de aula de maneira agrad\u00e1vel. As aulas de literatura s\u00e3o chatas, desculpe a express\u00e3o. Eles n\u00e3o t\u00eam esse foco.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O que \u00e9 o projeto Itiner\u00e1rios da Leitura da\u00a0CBL?<\/p>\n<p>Torelli: Na Bienal do\u00a0Livro\u00a0de S\u00e3o Paulo de 2018, n\u00f3s lan\u00e7amos o projeto Itiner\u00e1rios da Leitura. Uma iniciativa para apoiar o professor a estimular a leitura em sala de aula desde a inf\u00e2ncia, para formar o leitor de forma mais contundente e mais r\u00e1pida. \u00c9 na idade escolar que \u00e9 mais poss\u00edvel criar o h\u00e1bito de ler. Depois da influ\u00eancia da m\u00e3e em casa, \u00e9 o professor na escola a principal figura para incentivar a leitura. O projeto est\u00e1 no nosso site. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o documento sirva de refer\u00eancia para iniciativas de est\u00edmulo \u00e0 leitura. Vamos ver se conseguimos levar a ideia ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo governo.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Que import\u00e2ncia tem estimular o h\u00e1bito de ler?<\/p>\n<p>Torelli: A leitura \u00e9 transformadora. N\u00e3o d\u00e1 para falar em educa\u00e7\u00e3o sem falar em leitura e vice-versa. Os testes internacionais de ci\u00eancia, matem\u00e1tica e leitura mostram o Brasil l\u00e1 na rabeira. As provas mostram claramente que os nossos alunos n\u00e3o conseguem interpretar um texto simples. Isso \u00e9 falta de treinamento de leitura. \u00c9 coisa que o pa\u00eds precisava se preocupar bastante. Eu, sinceramente, n\u00e3o escutei no discurso dos nossos presidenci\u00e1veis nenhuma refer\u00eancia a isso.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: O senhor teria alguma sugest\u00e3o ao pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica ou ao ministro da Educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Torelli: Se eu pudesse fazer alguma recomenda\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3ximo governo seria olhar mais atentamente para as bibliotecas. Num pa\u00eds com poucas livrarias e com pouco acesso ao\u00a0livro, fica quase imposs\u00edvel ter um programa de forma\u00e7\u00e3o de leitores se as pessoas n\u00e3o t\u00eam onde buscar o\u00a0livro. As bibliotecas cumprem essa lacuna. Minha humilde sugest\u00e3o ao pr\u00f3ximo governo \u00e9 \u2018vamos olhar mais para as bibliotecas\u2019. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 construir. Precisa de um acervo que convide e que seja atraente.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: A falta do h\u00e1bito de leitura favorece a circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas?<\/p>\n<p>Torelli: Pesa muito. A leitura te d\u00e1 conhecimento e conte\u00fado. Na Bienal do\u00a0Livro, diz\u00edamos \u2018venha fazer um download do conhecimento\u2019. Quando voc\u00ea l\u00ea um\u00a0livro\u00a0para se aprofundar em um tema ou para passar o tempo sabe que as obras t\u00eam DNA, o ISBN [International Standard Book Number], uma editora, um autor conhecido. Essas not\u00edcias que lemos no WhatsApp muitas vezes n\u00e3o t\u00eam autoria, n\u00e3o t\u00eam fonte confi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 apenas ler, mas saber o que est\u00e1 lendo. A gente est\u00e1 vendo isso nessas elei\u00e7\u00f5es. Verdadeiras barbaridades. As pessoas formam opini\u00e3o sem checar o que recebem, a origem dos dados ou quem \u00e9 que est\u00e1 publicando. Quando voc\u00ea tem um pouco de conte\u00fado, proporcionado pela leitura, v\u00ea que aquilo n\u00e3o tem nenhum fundamento.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia Brasil: Junto com as not\u00edcias falsas tamb\u00e9m circula intoler\u00e2ncia. H\u00e1 intoler\u00e2ncia contra os\u00a0livros?<\/p>\n<p>Torelli: N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contra os\u00a0livros, mas intoler\u00e2ncia de forma geral. Pela facilidade que h\u00e1 para publicar pelas m\u00eddias sociais, h\u00e1 opini\u00e3o para tudo, \u00e0s vezes, com base em absurdos. Quando vejo alguma coisa estranha sobre os candidatos pergunto: \u2018mas voc\u00ea leu isso?\u2019. A resposta costuma ser \u2018n\u00e3o li, mas ouvi a respeito\u2019. A intoler\u00e2ncia com\u00a0livros\u00a0\u00e9 coisa que precisamos ficar muito atentos. O\u00a0livro\u00a0\u00e9 quem nos traz o conhecimento, a informa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea compra o que voc\u00ea quiser e l\u00ea o que quiser. O Estado n\u00e3o tem que ter esse tipo de interfer\u00eancia. Por que o Estado tem que dizer o que eu posso e o que eu n\u00e3o posso ler? A liberdade de express\u00e3o \u00e9 fundamental. Nenhum pa\u00eds cresce, nenhum povo evolui com qualquer restri\u00e7\u00e3o a isso. O\u00a0livro\u00a0materializa a liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":47049,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-50886","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50886"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50886\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52502,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50886\/revisions\/52502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}