{"id":50661,"date":"2017-01-18T00:00:00","date_gmt":"2017-01-18T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/2017\/01\/18\/erivan-e-os-desafios-do-mercado-editorial\/"},"modified":"2022-05-26T15:44:59","modified_gmt":"2022-05-26T18:44:59","slug":"erivan-e-os-desafios-do-mercado-editorial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/2017\/01\/erivan-e-os-desafios-do-mercado-editorial\/","title":{"rendered":"Erivan e os desafios do mercado editorial"},"content":{"rendered":"<p><em>POR IVANI CARDOSO - Publishing Perspectives Educa\u00e7\u00e3o\u00a0 - 18\/01\/2017<\/em><\/p>\n<p>Nesta quarta (18\/01), a Cortez Editora completa 37 anos. Fundada por Jos\u00e9 Xavier Cortez, tem Antonio Erivan Gomes, 51 anos, como editor comercial, que acompanha a trajet\u00f3ria da empresa desde a cria\u00e7\u00e3o. Erivan \u00e9 sobrinho de Cortez, nasceu no S\u00edtio Santa Rita, na caatinga do Rio Grande do Norte, e veio com 11 anos para S\u00e3o Paulo para morar com o tio e estudar. Com 14 anos come\u00e7ou a trabalhar na primeira editora de Cortez como office-boy, e uma das exig\u00eancias do tio era que, al\u00e9m da escola, ele dedicasse duas horas por dia \u00e0 leitura. Para Erivan, que nunca tinha chegado perto de um livro at\u00e9 os 11 anos, era dif\u00edcil cumprir a tarefa, principalmente porque entre os livros indicados pelo tio estavam Grande sert\u00e3o: veredas, de Guimar\u00e3es Rosa, e Solo de clarineta, de \u00c9rico Verissimo, de dif\u00edcil compreens\u00e3o para sua idade. Ele at\u00e9 que tentou ler, pulando p\u00e1ginas, mas n\u00e3o foi nada divertido. Mas um dia o milagre aconteceu, quando entrou em uma livraria antiga e encontrou Menino de engenho, a primeira obra, de Jos\u00e9 Lins do Rego. \u201cEu me identifiquei com o livro que falava da minha realidade ainda muito pr\u00f3xima e me despertou o amor pela leitura. Erivan est\u00e1 na diretoria da C\u00e2mara Brasileira do Livro desde 2003 e recentemente assumiu a vice-presid\u00eancia (s\u00e3o quatro vices, por regi\u00e3o) do Grupo Ibero-americano de Editores (GIE), entidade que re\u00fane 22 c\u00e2maras do livro de 20 pa\u00edses. Nessa entrevista, o diretor da Cortez fala sobre os novos rumos da editora, seu empenho para ampliar o projeto Acervo Internacional Cortez Editora, idealizado por ele e lan\u00e7ado em 2016, e comenta os desafios do mercado editorial brasileiro em tempos de crise.<\/p>\n<p>Confira a \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p>O momento econ\u00f4mico dif\u00edcil provocou mudan\u00e7as na empresa?<br \/>\nA Cortez Editora conta com mais de 1.300 t\u00edtulos em cat\u00e1logo de autores, em sua maioria, brasileiros. Com as mudan\u00e7as no mercado editorial e o momento econ\u00f4mico, em 2016 resolvemos vender apenas t\u00edtulos da editora na Livraria Cortez. Estamos ao lado de uma universidade, mas n\u00e3o conseguimos trazer todo esse p\u00fablico cliente da livraria e, por isso, encerramos como livraria geral, mas para professores, estudantes e pesquisadores temos um acervo interessante de t\u00edtulos nas \u00e1reas que atuamos. Temos um espa\u00e7o cultural que vamos trabalhar melhor, estamos reestruturando. Nossa ideia \u00e9 fazer lan\u00e7amentos, at\u00e9 mesmo de outras editoras, abrir para palestras de autores, reuni\u00f5es de professores da PUC e outras atividades.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 de um 2017 mais dif\u00edcil?<br \/>\nInfelizmente 2016 foi um ano complicado para o mercado editorial e a previs\u00e3o para 2017 n\u00e3o \u00e9 muito animadora. Vamos limitar as tradu\u00e7\u00f5es e refor\u00e7ar o mercado interno para posteriormente atuar bem no Exterior. Nos \u00faltimos dez anos publicamos cerca de 80 t\u00edtulos por ano, s\u00f3 de novas edi\u00e7\u00f5es (de 200 a 300 reimpress\u00f5es). Em 2015 publicamos cerca de 50 livros por m\u00eas, em 2016 foram 40 e esse ano devemos fechar com esse n\u00famero novamente. Vamos refor\u00e7ar a publica\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas em que atuamos (como Educa\u00e7\u00e3o, Servi\u00e7o Social, Sociologia, Ci\u00eancias da Linguagem e Literatura Infantojuvenil). Uma editora n\u00e3o tem possibilidades de fazer muitos investimentos na produ\u00e7\u00e3o de um livro, que \u00e9 cara, porque o retorno \u00e9 a longu\u00edssimo prazo, principalmente quando voc\u00ea trabalha com editoras acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>Que outras mudan\u00e7as vir\u00e3o?<br \/>\nOutra estrat\u00e9gia para os pr\u00f3ximos anos \u00e9 a de fazer com que 2\/3 do nosso cat\u00e1logo seja de impress\u00e3o sob demanda. \u00c9 uma outra realidade e prestadores de servi\u00e7os e gr\u00e1ficas est\u00e3o trabalhando nesse segmento, com um custo bem menor. A impress\u00e3o sob demanda (POD, na sigla em ingl\u00eas) vem sendo utilizada j\u00e1 h\u00e1 tempos pela ind\u00fastria editorial dos EUA, como meio de reduzir estoques e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de log\u00edstica. Podemos ter uma escala para 50 exemplares, por exemplo, com um custo relativamente compensador, viabilizando assim manter um pequeno estoque. O maior potencial de uma editora \u00e9 o seu cat\u00e1logo e esse sistema permite, inclusive, que livros esgotados voltem \u00e0s prateleiras. Claro que as editoras mais antigas levam desvantagem porque n\u00e3o possuem os arquivos digitais, as novas editoras t\u00eam esse ganho. O mercado mudou e as editoras e o mercado livreiro devem se adaptar a uma nova realidade.<\/p>\n<p>A editora voltou seu olhar para o mercado internacional. Est\u00e1 dando certo?<br \/>\nSim, estamos investindo na internacionaliza\u00e7\u00e3o do nosso cat\u00e1logo, promovendo no exterior autores e ilustradores brasileiros. Participamos continuamente das principais feiras internacionais de livros como Frankfurt, Bolonha e Guadalajara, e nosso foco principal \u00e9 a venda de Direitos Autorais. Nos \u00faltimos anos, foram vendidos 25 t\u00edtulos para diferentes pa\u00edses como China, Coreia do Sul, Taiwan, Mal\u00e1sia, L\u00edbano, Espanha, Portugal, Estados Unidos, Turquia e Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o projeto AICE?<br \/>\nO projeto Acervo Internacional Cortez Editora foi lan\u00e7ado na Bienal do Livro em 2016 e tem como finalidade principal disponibilizar t\u00edtulos e autores importantes nos idiomas originais nas \u00e1reas em que publicamos. Inicialmente temos 31 t\u00edtulos e, nos pr\u00f3ximos 12 meses, a expectativa \u00e9 a de contarmos com cerca de 150 t\u00edtulos nesse projeto. A proposta \u00e9 manter uma sele\u00e7\u00e3o diferenciada de livros importados (escolhidos pelos especialistas de nossas comiss\u00f5es editoriais) impressos nos idiomas originais.<\/p>\n<p>Quem se beneficiar\u00e1 desse acervo?<br \/>\nAcreditamos que os maiores benefici\u00e1rios ser\u00e3o os professores e pesquisadores de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de universidades de todo o pa\u00eds. Estes ter\u00e3o, \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, t\u00edtulos importados com pre\u00e7os similares aos livros brasileiros. Sabemos que um dos grandes problemas do livro importado \u00e9 o seu pre\u00e7o e o tempo de espera para a importa\u00e7\u00e3o. Com o AICE teremos o livro para pronta entrega a pre\u00e7os competitivos e com a possibilidade de contar com autores importantes de outros pa\u00edses que dificilmente seriam traduzidos aqui. Eu trago o livro tal e qual impresso l\u00e1, e fa\u00e7o um acordo com a editora. O livro importado \u00e9 caro, \u00e9 proibitivo por conta de tudo, da mesma forma que \u00e9 proibitivo um livro brasileiro quando chega a Portugal. Com a impress\u00e3o feita aqui eu consigo viabilizar as vendas com um pre\u00e7o justo.<\/p>\n<p>Que tipo de livro interessa?<br \/>\nA Cortez est\u00e1 viabilizando aumentar seu fundo editorial em algumas \u00e1reas que atuamos. Por exemplo, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nada de Walter Benjamin e agora temos, trouxemos um livro sobre ele de uma editora espanhola e vendeu relativamente bem. J\u00e1 trouxemos 31 livros, por enquanto somente de duas editoras espanholas, mas pretendemos ter 200 t\u00edtulos daqui a dois anos, em ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol. Esses idiomas t\u00eam mais leitores e esse projeto \u00e9 focado no cliente. Temos que fazer de tudo para que a editora ganhe e o editor do original tamb\u00e9m ganhe atrav\u00e9s de royalties, mas o livro importado vai chegar com pre\u00e7o nacional. A chave \u00e9 a confian\u00e7a, ainda n\u00e3o somos muito conhecidos l\u00e1 fora, mas vamos chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>Como ser\u00e1 sua atua\u00e7\u00e3o no GIE?<br \/>\nFui indicado pela diretoria da CBL, para uma gest\u00e3o de dois anos, e estou entre os quatro vice-presidentes regionais. O GIE \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que tem como objetivo a difus\u00e3o da leitura, a defesa do mercado e a livre circula\u00e7\u00e3o do livro na Am\u00e9rica Latina. Acho que o GIE deve ter um protagonismo maior, ainda \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o pequena, muita gente n\u00e3o conhece. Pode ter, por exemplo, um protagonismo junto a The International Publishers Association. A IPA quer fazer semin\u00e1rios sobre Direitos do Autor na Am\u00e9rica Latina, uma quest\u00e3o muito relevante para o nosso mercado. Editoras que publicam livros acad\u00eamicos podem sofrer um grande preju\u00edzo se o seu conte\u00fado for aberto para qualquer universidade e governos. O GIE tem como uma das bandeiras trabalhar essa quest\u00e3o, seria um dos bra\u00e7os da IPA na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 o mercado para vender direitos l\u00e1 fora?<br \/>\nDesde 1992 promovemos o autor e o ilustrador brasileiro fora do Pa\u00eds. Ha dez anos n\u00f3s sempre vendemos nossos livros acad\u00eamicos em Portugal, hoje n\u00e3o se vende mais, mas foi em uma viagem para Portugal e Espanha que eu tive a ideia de passar a vender direitos e n\u00e3o comprar. Os resultados s\u00e3o relativos, mas participando das feiras internacionais foi poss\u00edvel entrar nesse mercado e conhecer mais as editoras internacionais. Quando percebemos que havia mudado a pol\u00edtica do filho \u00fanico na China, isso nos alertou e resolvemos participar da Feira do Livro de Xangai em 2014 e 2015. Imagine um mercado em que v\u00e3o entrar por ano mais ou menos de 15 a 20 milh\u00f5es de crian\u00e7as. Haver\u00e1 um baby boom, e mesmo que inicialmente eles busquem livros de padr\u00e3o mais comercial e as s\u00e9ries, a tend\u00eancia \u00e9 que posteriormente os pr\u00f3prios pais procurem o livro brasileiro, aquele t\u00edtulo liter\u00e1rio com conte\u00fado diferenciado, \u00e9 o resultado natural do amadurecimento do mercado. \u00c9 uma das nossas apostas para os pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Entrar nesse mercado \u00e9 dif\u00edcil?<br \/>\nVamos concorrer com os grandes como americanos e ingleses, mas nosso livro hoje tamb\u00e9m tem uma qualidade est\u00e9tica, gr\u00e1fica e de texto. Alguns livros foram traduzidos e j\u00e1 conseguimos negociar com a China, Mal\u00e1sia, Coreia. Dez t\u00edtulos n\u00e3o representam muito, mas \u00e9 um come\u00e7o para uma editora que chegou l\u00e1 e n\u00e3o era conhecida. A participa\u00e7\u00e3o no Brazilian Publisher tamb\u00e9m foi fundamental porque sem esse apoio da Apex e da CBL n\u00e3o haveria oportunidade para comprar espa\u00e7os e montar estandes nessas feiras. O Brasil precisa se posicionar como pa\u00eds vendedor. A China est\u00e1 em uma fase de transi\u00e7\u00e3o, eles foram e s\u00e3o grandes compradores de conte\u00fado, est\u00e3o fazendo um esfor\u00e7o gigante e em suas feiras trazem comitivas de autores e ilustradores do mundo inteiro. Taiwan e Coreia s\u00e3o pa\u00edses compradores, assim como o Brasil \u00e9. Temos uma produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado muito grande, pena que esse trabalho n\u00e3o \u00e9 feito institucionalmente no Brasil, depende muito dos editores e poucos t\u00eam interesse em sair do pa\u00eds e mostrar sua produ\u00e7\u00e3o l\u00e1 fora.\u00c9 mais f\u00e1cil comprar, vender \u00e9 um desafio muito grande, exige investimento e com retornos.<\/p>\n<p>Para a Cortez o retorno tem sido bom?<br \/>\nN\u00e3o pagamos o custo de participar da Feira do Livro de Xangai com o que vendemos l\u00e1, mas estamos pensando para frente. Se hoje eu tenho 30 livros vendidos, daqui a dois anos podemos ter 50 e em cinco anos estaremos recebendo royalties desses livros vendidos.<br \/>\nN\u00f3s temos um complexo de coitadinhos, mas n\u00e3o somos. A qualidade do livro no Brasil \u00e9 reconhecida e temos que valorizar nosso trabalho. Estamos apostando em uma nova ideia, mesmo que no come\u00e7o seja dif\u00edcil. Procuramos tamb\u00e9m empresas parceiras para vender nossos livros l\u00e1 fora em um segundo momento. O Brasil n\u00e3o produz na l\u00edngua que tem que produzir que \u00e9 em ingl\u00eas, \u00e9 um problema da academia, a universidade brasileira n\u00e3o abriu os olhos para esse mercado gigante que atinge 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ano no mundo de universidades que t\u00eam cursos em outras l\u00ednguas, como as universidades portuguesas que t\u00eam cursos em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os novos projetos para 2017?<br \/>\nNa \u00e1rea do livro infantil, investimos R$ 60 mil em tradu\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o podemos fazer isso com todo cat\u00e1logo, \u00e9 um valor alto e as tradu\u00e7\u00f5es precisam ser de especialistas. Nossos livros infantis, cerca de 100, no cat\u00e1logo, est\u00e3o tamb\u00e9m em ingl\u00eas e pretendemos continuar dessa forma. Temos a aposto do \u201cLivro que l\u00ea gente\u201d, que foi selecionado pela C\u00e1tedra da Unesco entre os dez melhores e tamb\u00e9m pelo site Leiturinha. Podemos dizer que 100% das nossas edi\u00e7\u00f5es de literatura infantil s\u00e3o de autores e ilustradores brasileiros. Apenas 5% do nosso cat\u00e1logo geral, de 1300 t\u00edtulos, s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA literatura infantil no Brasil tem se desenvolvido. N\u00f3s come\u00e7amos em 2004 e hoje temos cerca de 400 t\u00edtulos, um cat\u00e1logo bem interessante. Temos tamb\u00e9m um novo livro do Mario Sergio Cortella para pais e professores e outro do Boaventura Sousa Santos, um autor portugu\u00eas na \u00e1rea de Sociologia, que devem ter bom retorno.<\/p>\n<p>Voc\u00ea l\u00ea bastante?<br \/>\nGostaria de ler muito mais, mas n\u00e3o tenho muito tempo. Tenho tr\u00eas filhos: o Pedro, 18 anos, o Igor, de 3 anos, e o Iuri, com seis meses. Agora estou na fase de ler com o Igor todas as noites literatura infantil. Est\u00e1 sendo muito bom.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>POR IVANI CARDOSO - Publishing Perspectives Educa\u00e7\u00e3o\u00a0 - 18\/01\/2017<\/em><\/p>\n<p>Nesta quarta (18\/01), a Cortez Editora completa 37 anos. Fundada por Jos\u00e9 Xavier Cortez, tem Antonio Erivan Gomes, 51 anos, como editor comercial, que acompanha a trajet\u00f3ria da empresa desde a cria\u00e7\u00e3o. Erivan \u00e9 sobrinho de Cortez, nasceu no S\u00edtio Santa Rita, na caatinga do Rio Grande do Norte, e veio com 11 anos para S\u00e3o Paulo para morar com o tio e estudar. Com 14 anos come\u00e7ou a trabalhar na primeira editora de Cortez como office-boy, e uma das exig\u00eancias do tio era que, al\u00e9m da escola, ele dedicasse duas horas por dia \u00e0 leitura. Para Erivan, que nunca tinha chegado perto de um livro at\u00e9 os 11 anos, era dif\u00edcil cumprir a tarefa, principalmente porque entre os livros indicados pelo tio estavam Grande sert\u00e3o: veredas, de Guimar\u00e3es Rosa, e Solo de clarineta, de \u00c9rico Verissimo, de dif\u00edcil compreens\u00e3o para sua idade. Ele at\u00e9 que tentou ler, pulando p\u00e1ginas, mas n\u00e3o foi nada divertido. Mas um dia o milagre aconteceu, quando entrou em uma livraria antiga e encontrou Menino de engenho, a primeira obra, de Jos\u00e9 Lins do Rego. \u201cEu me identifiquei com o livro que falava da minha realidade ainda muito pr\u00f3xima e me despertou o amor pela leitura. Erivan est\u00e1 na diretoria da C\u00e2mara Brasileira do Livro desde 2003 e recentemente assumiu a vice-presid\u00eancia (s\u00e3o quatro vices, por regi\u00e3o) do Grupo Ibero-americano de Editores (GIE), entidade que re\u00fane 22 c\u00e2maras do livro de 20 pa\u00edses. Nessa entrevista, o diretor da Cortez fala sobre os novos rumos da editora, seu empenho para ampliar o projeto Acervo Internacional Cortez Editora, idealizado por ele e lan\u00e7ado em 2016, e comenta os desafios do mercado editorial brasileiro em tempos de crise.<\/p>\n<p>Confira a \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p>O momento econ\u00f4mico dif\u00edcil provocou mudan\u00e7as na empresa?<br \/>\nA Cortez Editora conta com mais de 1.300 t\u00edtulos em cat\u00e1logo de autores, em sua maioria, brasileiros. Com as mudan\u00e7as no mercado editorial e o momento econ\u00f4mico, em 2016 resolvemos vender apenas t\u00edtulos da editora na Livraria Cortez. Estamos ao lado de uma universidade, mas n\u00e3o conseguimos trazer todo esse p\u00fablico cliente da livraria e, por isso, encerramos como livraria geral, mas para professores, estudantes e pesquisadores temos um acervo interessante de t\u00edtulos nas \u00e1reas que atuamos. Temos um espa\u00e7o cultural que vamos trabalhar melhor, estamos reestruturando. Nossa ideia \u00e9 fazer lan\u00e7amentos, at\u00e9 mesmo de outras editoras, abrir para palestras de autores, reuni\u00f5es de professores da PUC e outras atividades.<\/p>\n<p>A previs\u00e3o \u00e9 de um 2017 mais dif\u00edcil?<br \/>\nInfelizmente 2016 foi um ano complicado para o mercado editorial e a previs\u00e3o para 2017 n\u00e3o \u00e9 muito animadora. Vamos limitar as tradu\u00e7\u00f5es e refor\u00e7ar o mercado interno para posteriormente atuar bem no Exterior. Nos \u00faltimos dez anos publicamos cerca de 80 t\u00edtulos por ano, s\u00f3 de novas edi\u00e7\u00f5es (de 200 a 300 reimpress\u00f5es). Em 2015 publicamos cerca de 50 livros por m\u00eas, em 2016 foram 40 e esse ano devemos fechar com esse n\u00famero novamente. Vamos refor\u00e7ar a publica\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas em que atuamos (como Educa\u00e7\u00e3o, Servi\u00e7o Social, Sociologia, Ci\u00eancias da Linguagem e Literatura Infantojuvenil). Uma editora n\u00e3o tem possibilidades de fazer muitos investimentos na produ\u00e7\u00e3o de um livro, que \u00e9 cara, porque o retorno \u00e9 a longu\u00edssimo prazo, principalmente quando voc\u00ea trabalha com editoras acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>Que outras mudan\u00e7as vir\u00e3o?<br \/>\nOutra estrat\u00e9gia para os pr\u00f3ximos anos \u00e9 a de fazer com que 2\/3 do nosso cat\u00e1logo seja de impress\u00e3o sob demanda. \u00c9 uma outra realidade e prestadores de servi\u00e7os e gr\u00e1ficas est\u00e3o trabalhando nesse segmento, com um custo bem menor. A impress\u00e3o sob demanda (POD, na sigla em ingl\u00eas) vem sendo utilizada j\u00e1 h\u00e1 tempos pela ind\u00fastria editorial dos EUA, como meio de reduzir estoques e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de log\u00edstica. Podemos ter uma escala para 50 exemplares, por exemplo, com um custo relativamente compensador, viabilizando assim manter um pequeno estoque. O maior potencial de uma editora \u00e9 o seu cat\u00e1logo e esse sistema permite, inclusive, que livros esgotados voltem \u00e0s prateleiras. Claro que as editoras mais antigas levam desvantagem porque n\u00e3o possuem os arquivos digitais, as novas editoras t\u00eam esse ganho. O mercado mudou e as editoras e o mercado livreiro devem se adaptar a uma nova realidade.<\/p>\n<p>A editora voltou seu olhar para o mercado internacional. Est\u00e1 dando certo?<br \/>\nSim, estamos investindo na internacionaliza\u00e7\u00e3o do nosso cat\u00e1logo, promovendo no exterior autores e ilustradores brasileiros. Participamos continuamente das principais feiras internacionais de livros como Frankfurt, Bolonha e Guadalajara, e nosso foco principal \u00e9 a venda de Direitos Autorais. 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A proposta \u00e9 manter uma sele\u00e7\u00e3o diferenciada de livros importados (escolhidos pelos especialistas de nossas comiss\u00f5es editoriais) impressos nos idiomas originais.<\/p>\n<p>Quem se beneficiar\u00e1 desse acervo?<br \/>\nAcreditamos que os maiores benefici\u00e1rios ser\u00e3o os professores e pesquisadores de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de universidades de todo o pa\u00eds. Estes ter\u00e3o, \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, t\u00edtulos importados com pre\u00e7os similares aos livros brasileiros. Sabemos que um dos grandes problemas do livro importado \u00e9 o seu pre\u00e7o e o tempo de espera para a importa\u00e7\u00e3o. Com o AICE teremos o livro para pronta entrega a pre\u00e7os competitivos e com a possibilidade de contar com autores importantes de outros pa\u00edses que dificilmente seriam traduzidos aqui. Eu trago o livro tal e qual impresso l\u00e1, e fa\u00e7o um acordo com a editora. O livro importado \u00e9 caro, \u00e9 proibitivo por conta de tudo, da mesma forma que \u00e9 proibitivo um livro brasileiro quando chega a Portugal. Com a impress\u00e3o feita aqui eu consigo viabilizar as vendas com um pre\u00e7o justo.<\/p>\n<p>Que tipo de livro interessa?<br \/>\nA Cortez est\u00e1 viabilizando aumentar seu fundo editorial em algumas \u00e1reas que atuamos. Por exemplo, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos nada de Walter Benjamin e agora temos, trouxemos um livro sobre ele de uma editora espanhola e vendeu relativamente bem. J\u00e1 trouxemos 31 livros, por enquanto somente de duas editoras espanholas, mas pretendemos ter 200 t\u00edtulos daqui a dois anos, em ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol. Esses idiomas t\u00eam mais leitores e esse projeto \u00e9 focado no cliente. Temos que fazer de tudo para que a editora ganhe e o editor do original tamb\u00e9m ganhe atrav\u00e9s de royalties, mas o livro importado vai chegar com pre\u00e7o nacional. A chave \u00e9 a confian\u00e7a, ainda n\u00e3o somos muito conhecidos l\u00e1 fora, mas vamos chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>Como ser\u00e1 sua atua\u00e7\u00e3o no GIE?<br \/>\nFui indicado pela diretoria da CBL, para uma gest\u00e3o de dois anos, e estou entre os quatro vice-presidentes regionais. O GIE \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que tem como objetivo a difus\u00e3o da leitura, a defesa do mercado e a livre circula\u00e7\u00e3o do livro na Am\u00e9rica Latina. Acho que o GIE deve ter um protagonismo maior, ainda \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o pequena, muita gente n\u00e3o conhece. Pode ter, por exemplo, um protagonismo junto a The International Publishers Association. A IPA quer fazer semin\u00e1rios sobre Direitos do Autor na Am\u00e9rica Latina, uma quest\u00e3o muito relevante para o nosso mercado. Editoras que publicam livros acad\u00eamicos podem sofrer um grande preju\u00edzo se o seu conte\u00fado for aberto para qualquer universidade e governos. O GIE tem como uma das bandeiras trabalhar essa quest\u00e3o, seria um dos bra\u00e7os da IPA na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 o mercado para vender direitos l\u00e1 fora?<br \/>\nDesde 1992 promovemos o autor e o ilustrador brasileiro fora do Pa\u00eds. Ha dez anos n\u00f3s sempre vendemos nossos livros acad\u00eamicos em Portugal, hoje n\u00e3o se vende mais, mas foi em uma viagem para Portugal e Espanha que eu tive a ideia de passar a vender direitos e n\u00e3o comprar. Os resultados s\u00e3o relativos, mas participando das feiras internacionais foi poss\u00edvel entrar nesse mercado e conhecer mais as editoras internacionais. Quando percebemos que havia mudado a pol\u00edtica do filho \u00fanico na China, isso nos alertou e resolvemos participar da Feira do Livro de Xangai em 2014 e 2015. Imagine um mercado em que v\u00e3o entrar por ano mais ou menos de 15 a 20 milh\u00f5es de crian\u00e7as. Haver\u00e1 um baby boom, e mesmo que inicialmente eles busquem livros de padr\u00e3o mais comercial e as s\u00e9ries, a tend\u00eancia \u00e9 que posteriormente os pr\u00f3prios pais procurem o livro brasileiro, aquele t\u00edtulo liter\u00e1rio com conte\u00fado diferenciado, \u00e9 o resultado natural do amadurecimento do mercado. \u00c9 uma das nossas apostas para os pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Entrar nesse mercado \u00e9 dif\u00edcil?<br \/>\nVamos concorrer com os grandes como americanos e ingleses, mas nosso livro hoje tamb\u00e9m tem uma qualidade est\u00e9tica, gr\u00e1fica e de texto. Alguns livros foram traduzidos e j\u00e1 conseguimos negociar com a China, Mal\u00e1sia, Coreia. Dez t\u00edtulos n\u00e3o representam muito, mas \u00e9 um come\u00e7o para uma editora que chegou l\u00e1 e n\u00e3o era conhecida. A participa\u00e7\u00e3o no Brazilian Publisher tamb\u00e9m foi fundamental porque sem esse apoio da Apex e da CBL n\u00e3o haveria oportunidade para comprar espa\u00e7os e montar estandes nessas feiras. O Brasil precisa se posicionar como pa\u00eds vendedor. A China est\u00e1 em uma fase de transi\u00e7\u00e3o, eles foram e s\u00e3o grandes compradores de conte\u00fado, est\u00e3o fazendo um esfor\u00e7o gigante e em suas feiras trazem comitivas de autores e ilustradores do mundo inteiro. Taiwan e Coreia s\u00e3o pa\u00edses compradores, assim como o Brasil \u00e9. Temos uma produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado muito grande, pena que esse trabalho n\u00e3o \u00e9 feito institucionalmente no Brasil, depende muito dos editores e poucos t\u00eam interesse em sair do pa\u00eds e mostrar sua produ\u00e7\u00e3o l\u00e1 fora.\u00c9 mais f\u00e1cil comprar, vender \u00e9 um desafio muito grande, exige investimento e com retornos.<\/p>\n<p>Para a Cortez o retorno tem sido bom?<br \/>\nN\u00e3o pagamos o custo de participar da Feira do Livro de Xangai com o que vendemos l\u00e1, mas estamos pensando para frente. Se hoje eu tenho 30 livros vendidos, daqui a dois anos podemos ter 50 e em cinco anos estaremos recebendo royalties desses livros vendidos.<br \/>\nN\u00f3s temos um complexo de coitadinhos, mas n\u00e3o somos. A qualidade do livro no Brasil \u00e9 reconhecida e temos que valorizar nosso trabalho. Estamos apostando em uma nova ideia, mesmo que no come\u00e7o seja dif\u00edcil. Procuramos tamb\u00e9m empresas parceiras para vender nossos livros l\u00e1 fora em um segundo momento. O Brasil n\u00e3o produz na l\u00edngua que tem que produzir que \u00e9 em ingl\u00eas, \u00e9 um problema da academia, a universidade brasileira n\u00e3o abriu os olhos para esse mercado gigante que atinge 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ano no mundo de universidades que t\u00eam cursos em outras l\u00ednguas, como as universidades portuguesas que t\u00eam cursos em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o os novos projetos para 2017?<br \/>\nNa \u00e1rea do livro infantil, investimos R$ 60 mil em tradu\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o podemos fazer isso com todo cat\u00e1logo, \u00e9 um valor alto e as tradu\u00e7\u00f5es precisam ser de especialistas. Nossos livros infantis, cerca de 100, no cat\u00e1logo, est\u00e3o tamb\u00e9m em ingl\u00eas e pretendemos continuar dessa forma. Temos a aposto do \u201cLivro que l\u00ea gente\u201d, que foi selecionado pela C\u00e1tedra da Unesco entre os dez melhores e tamb\u00e9m pelo site Leiturinha. Podemos dizer que 100% das nossas edi\u00e7\u00f5es de literatura infantil s\u00e3o de autores e ilustradores brasileiros. Apenas 5% do nosso cat\u00e1logo geral, de 1300 t\u00edtulos, s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA literatura infantil no Brasil tem se desenvolvido. N\u00f3s come\u00e7amos em 2004 e hoje temos cerca de 400 t\u00edtulos, um cat\u00e1logo bem interessante. Temos tamb\u00e9m um novo livro do Mario Sergio Cortella para pais e professores e outro do Boaventura Sousa Santos, um autor portugu\u00eas na \u00e1rea de Sociologia, que devem ter bom retorno.<\/p>\n<p>Voc\u00ea l\u00ea bastante?<br \/>\nGostaria de ler muito mais, mas n\u00e3o tenho muito tempo. Tenho tr\u00eas filhos: o Pedro, 18 anos, o Igor, de 3 anos, e o Iuri, com seis meses. Agora estou na fase de ler com o Igor todas as noites literatura infantil. Est\u00e1 sendo muito bom.<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":46677,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-50661","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50661"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51208,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50661\/revisions\/51208"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}