{"id":132100,"date":"2026-09-18T10:07:36","date_gmt":"2026-09-18T13:07:36","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/?p=132100"},"modified":"2026-09-18T14:51:57","modified_gmt":"2026-09-18T17:51:57","slug":"das-telas-aos-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/2026\/09\/das-telas-aos-livros\/","title":{"rendered":"Das telas aos livros"},"content":{"rendered":"<p><em><br data-olk-copy-source=\"MessageBody\" \/>Os dados sobre consumo e a Bienal de S\u00e3o Paulo revelam novos caminhos da leitura<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>Por Sevani Matos e Hubert Alqueres<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>Uma das imagens mais marcantes da 28\u00aa Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo foi a de milhares de jovens fazendo fila para encontrar escritores. Esperaram horas, acompanharam conversas, pediram aut\u00f3grafos, encontraram amigos que conheciam das redes sociais. Muitos chegaram com malas vazias e sa\u00edram com elas cheias de livros. A cena ganha ainda mais significado quando confrontada com um dado preocupante: a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que o pa\u00eds perdeu 6,7 milh\u00f5es de leitores entre 2019 e 2024 e que, pela primeira vez na s\u00e9rie hist\u00f3rica, os n\u00e3o leitores passaram a representar a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o entre essas duas fotografias. H\u00e1 um fen\u00f4meno que precisamos compreender melhor. Os dados mais recentes do Panorama do Consumo de Livros, pesquisa da C\u00e2mara Brasileira do Livro realizada pela Nielsen BookData, mostram que cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de brasileiros passaram a integrar o universo dos consumidores de livros em 2025, com o maior crescimento entre os mais jovens: somadas, as faixas de 18 a 34 anos avan\u00e7aram 3,4 pontos percentuais. \u00c9 preciso, naturalmente, distinguir as pesquisas. Comprar um livro n\u00e3o significa necessariamente l\u00ea-lo, assim como ser leitor n\u00e3o implica ter comprado os livros que se l\u00ea. Mas, quando colocamos esses dados ao lado do que aconteceu durante os dez dias da Bienal, surge uma quest\u00e3o importante: se o Brasil enfrenta uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de leitores, o que podemos aprender com os jovens que est\u00e3o se aproximando dos livros e demonstrando tamanho envolvimento com autores, hist\u00f3rias e comunidades de leitura?<\/p>\n<p>A Bienal oferece algumas pistas. Terminou com 760 mil visitantes, o maior p\u00fablico de sua hist\u00f3ria, e teve cinco dos dez dias com ingressos esgotados. Mais importante do que a dimens\u00e3o dos n\u00fameros, por\u00e9m, foi observar o comportamento desse p\u00fablico. Jovens ocuparam os espa\u00e7os de programa\u00e7\u00e3o, transformaram encontros com escritores em acontecimentos e demonstraram uma rela\u00e7\u00e3o com os livros que n\u00e3o corresponde \u00e0 imagem tantas vezes repetida de uma gera\u00e7\u00e3o que teria abandonado a leitura. O que vimos convida a olhar menos para essa oposi\u00e7\u00e3o e mais para os caminhos pelos quais os livros est\u00e3o sendo descobertos.<\/p>\n<p>Durante muito tempo estabelecemos uma separa\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica entre telas e livros. De um lado estariam TikTok, Instagram, YouTube, games e outras formas de entretenimento digital; do outro, a leitura. O crescimento de um significaria necessariamente o enfraquecimento do outro. Os dados mostram uma realidade bem mais complexa. Entre os consumidores de livros, as redes sociais est\u00e3o entre os principais h\u00e1bitos de lazer, ao lado da pr\u00f3pria leitura. Mais revelador ainda: 65% acompanham algum criador de conte\u00fado sobre livros ou literatura nas redes sociais, com forte presen\u00e7a dos mais jovens.<\/p>\n<p>Na Bienal, vimos a express\u00e3o presencial desse fen\u00f4meno. Autores e obras que ganharam proje\u00e7\u00e3o no ambiente digital mobilizaram multid\u00f5es no Anhembi. Comunidades formadas nas redes se transformaram em filas, encontros, conversas e sess\u00f5es de aut\u00f3grafos. O ambiente digital, que tantas vezes aparece no debate educacional e cultural apenas como concorrente do livro, tamb\u00e9m pode funcionar como espa\u00e7o de descoberta, recomenda\u00e7\u00e3o e pertencimento. Em muitos casos, a tela n\u00e3o interrompeu o caminho para o livro. Foi parte dele.<\/p>\n<p>Foi atento a essa transforma\u00e7\u00e3o que o Pr\u00eamio Jabuti criou, em 2026, a categoria Incentivo \u00e0 Leitura \u2013 Cultura Digital, destinada a reconhecer criadores de conte\u00fado que utilizam as plataformas digitais para aproximar pessoas dos livros e estimular a leitura. Durante muito tempo, quando fal\u00e1vamos em media\u00e7\u00e3o, pens\u00e1vamos principalmente em professores, bibliotec\u00e1rios, livreiros, cr\u00edticos e fam\u00edlias. Todos continuam fundamentais. A eles se juntou uma nova gera\u00e7\u00e3o de mediadores, capaz de recomendar uma obra a milhares de pessoas, formar comunidades em torno de autores e g\u00eaneros e despertar o desejo de ler. Reconhecer esse trabalho significa compreender que o ecossistema da leitura se ampliou.<\/p>\n<p>Passamos tempo demais perguntando como tirar os jovens das telas. Uma pergunta mais produtiva \u00e9 como compreender e ampliar os caminhos que podem lev\u00e1-los das telas aos livros. Isso n\u00e3o significa ignorar os problemas associados ao excesso de exposi\u00e7\u00e3o digital nem supor que todo conte\u00fado sobre literatura produza leitores. Significa reconhecer que mudaram os mecanismos de descoberta, recomenda\u00e7\u00e3o e pertencimento. Para escolas, bibliotecas, editoras e pol\u00edticas de leitura, compreender essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para dialogar com os leitores que est\u00e3o se formando.<\/p>\n<p>A Bienal tornou concreta outra dimens\u00e3o essencial desse processo: a escolha. Em parceria com a Prefeitura de S\u00e3o Paulo, foram destinados R$ 20 milh\u00f5es em vales-livro a estudantes e educadores. O cashback tamb\u00e9m ajudou a transformar parte do valor do ingresso em cr\u00e9dito para aquisi\u00e7\u00e3o de livros. H\u00e1 uma diferen\u00e7a enorme entre dar um livro a uma crian\u00e7a e permitir que ela escolha o seu livro. Percorrer estantes, olhar capas, ler sinopses, ouvir uma recomenda\u00e7\u00e3o, conversar com amigos, desistir de um t\u00edtulo e descobrir outro s\u00e3o gestos que ajudam a construir gosto, autonomia e identidade como leitor.<\/p>\n<p>Formar leitores, portanto, n\u00e3o significa apenas ensinar a ler ou colocar bons livros \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso criar desejo, curiosidade, encontro e mem\u00f3ria afetiva. Uma crian\u00e7a que visita a Bienal com a escola, um adolescente que espera horas para conhecer e conversar com um escritor ou algu\u00e9m que compra um livro com seu pr\u00f3prio vale leva para casa mais do que uma obra. Leva uma experi\u00eancia. A leitura \u00e9 um ato intelectual e individual, mas o v\u00ednculo com os livros se constr\u00f3i tamb\u00e9m por emo\u00e7\u00f5es, descobertas, refer\u00eancias e pertencimento.<\/p>\n<p>Eventos liter\u00e1rios de grande escala cumprem, nesse sentido, uma fun\u00e7\u00e3o que ultrapassa, sem negar, sua dimens\u00e3o comercial. N\u00e3o precisamos nos constranger porque uma feira vende livros. Livros precisam circular, editoras precisam vender, autores precisam encontrar leitores e livrarias precisam prosperar. Mas uma Bienal pode fazer muito mais: pode aproximar do livro pessoas que n\u00e3o frequentam regularmente livrarias, bibliotecas, clubes de leitura ou festivais liter\u00e1rios. Forma\u00e7\u00e3o de leitores tamb\u00e9m exige furar a bolha da leitura.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda muito a conhecer sobre esses novos leitores. O protagonismo juvenil observado na Bienal n\u00e3o deve ser tratado apenas como curiosidade ou fen\u00f4meno de mercado. Que livros esses jovens escolhem? Como chegam a eles? Qual \u00e9 o peso dos amigos, dos algoritmos, dos criadores de conte\u00fado e das comunidades digitais? Como transitam entre fantasia, romance, quadrinhos, cl\u00e1ssicos, poesia e n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o? E, principalmente, o que faz algu\u00e9m passar do primeiro livro para o segundo, o terceiro e o d\u00e9cimo? Se a Retratos da Leitura mostra a dimens\u00e3o do problema, pesquisas sobre consumo e comportamento podem ajudar a identificar caminhos para enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A Bienal refor\u00e7ou uma convic\u00e7\u00e3o: a leitura \u00e9 um ato individual, mas a forma\u00e7\u00e3o de leitores \u00e9 profundamente coletiva. Lemos sozinhos, mas quase nunca chegamos aos livros completamente sozinhos. Um professor, um bibliotec\u00e1rio, um livreiro, um amigo, um escritor, uma fam\u00edlia, um cr\u00edtico ou um criador de conte\u00fado digital pode abrir essa porta. O desafio n\u00e3o \u00e9 escolher entre esses mediadores, nem entre o mundo f\u00edsico e o digital. \u00c9 multiplicar as portas de entrada para o livro.<\/p>\n<p>Os estandes j\u00e1 foram desmontados e os corredores do Anhembi voltaram a ficar vazios. Os n\u00fameros entrar\u00e3o para as estat\u00edsticas do setor. Mas milhares de livros sa\u00edram dali nas m\u00e3os de seus novos leitores. Alguns ser\u00e3o esquecidos numa estante; outros ser\u00e3o lidos, emprestados, comentados e recomendados. E alguns representar\u00e3o o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o que continuar\u00e1 por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que os n\u00fameros j\u00e1 n\u00e3o conseguem contar toda a hist\u00f3ria. A Bienal dura dez dias. O encontro de algu\u00e9m com um livro pode durar uma vida inteira.<br \/>\n______________________________<\/p>\n<p><em>Sevani Matos \u00e9 presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro<\/em><\/p>\n<p><em>Hubert Alqueres \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, editor na Editora Jatob\u00e1, vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro e Curador do Pr\u00eamio Jabuti.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dados sobre consumo e a Bienal de S\u00e3o Paulo revelam novos caminhos da leitura Por Sevani Matos e Hubert Alqueres Uma das imagens mais marcantes da 28\u00aa Bienal Internacional do Livro de S\u00e3o Paulo foi a de milhares de jovens fazendo fila para encontrar escritores. 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