{"id":131272,"date":"2026-08-14T14:54:14","date_gmt":"2026-08-14T17:54:14","guid":{"rendered":"https:\/\/cbl.org.br\/?p=131272"},"modified":"2026-08-14T15:04:05","modified_gmt":"2026-08-14T18:04:05","slug":"as-vozes-que-chegam-as-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cbl.org.br\/en\/2026\/08\/as-vozes-que-chegam-as-criancas\/","title":{"rendered":"As vozes que chegam \u00e0s crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p><em>O debate internacional sobre literatura infantil mostra que formar leitores tamb\u00e9m \u00e9 prepar\u00e1-los para conviver com a diferen\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><em>Por Hubert Alqu\u00e9res e Karine Pansa<\/em><\/p>\n<p>Poucos anos ap\u00f3s o t\u00e9rmino da Segunda Guerra Mundial, Jella Lepman mobilizou um grupo de pessoas ligadas \u00e0 literatura infantil em torno de uma ideia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a constru\u00e7\u00e3o da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).<\/p>\n<p>A ideia de Lepman era simples e poderosa: crian\u00e7as que conhecem as hist\u00f3rias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete d\u00e9cadas depois, essa miss\u00e3o permanece atual, embora tenha adquirido novas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>A intui\u00e7\u00e3o continha uma dimens\u00e3o pol\u00edtica que permanece igualmente atual. Sociedades democr\u00e1ticas n\u00e3o dependem apenas da liberdade de falar, mas tamb\u00e9m da disposi\u00e7\u00e3o para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, constitui um dos primeiros espa\u00e7os em que se aprende a conviver com experi\u00eancias, valores e vis\u00f5es de mundo diferentes.<\/p>\n<p>O tema escolhido para o 40\u00ba Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, \u201cescutar as vozes uns dos outros\u201d, oferece uma chave interessante para compreender essa transforma\u00e7\u00e3o. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudan\u00e7a de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: <em>que livros devemos oferecer \u00e0s crian\u00e7as?<\/em> para outra, mais abrangente: <em>quais vozes conseguem chegar at\u00e9 elas?<\/em><\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o do congresso tornou essa evolu\u00e7\u00e3o particularmente evidente. Povos ind\u00edgenas, crian\u00e7as refugiadas, bibliotecas em regi\u00f5es de conflito, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nas confer\u00eancias e mesas de debate. \u00c0 primeira vista, temas bastante distintos. Observados em conjunto, por\u00e9m, revelam uma preocupa\u00e7\u00e3o comum: assegurar que toda crian\u00e7a possa encontrar, na literatura, tanto um espa\u00e7o de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.<\/p>\n<p>Essa perspectiva amplia significativamente a compreens\u00e3o do papel da literatura infantil. Durante muito tempo, ela foi vista sobretudo como instrumento de alfabetiza\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o de conhecimento, forma\u00e7\u00e3o moral ou incentivo \u00e0 leitura. Essas fun\u00e7\u00f5es permanecem essenciais. O que se acrescenta agora \u00e9 outra dimens\u00e3o: a literatura como espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o da alteridade.<\/p>\n<p>Alteridade, nesse contexto, significa reconhecer o outro como algu\u00e9m cuja experi\u00eancia tamb\u00e9m merece ser conhecida. A crian\u00e7a procura nos livros personagens com os quais possa se identificar, mas tamb\u00e9m necessita encontrar personagens que lhe apresentem modos distintos de viver, pensar e sentir. A boa literatura infantil realiza essas duas tarefas simultaneamente. Oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o apareceu com particular for\u00e7a nas discuss\u00f5es dedicadas \u00e0 chamada literatura Young Adult (YA), voltada ao p\u00fablico jovem.<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia deixou de ser tratada apenas como uma etapa de transi\u00e7\u00e3o entre a inf\u00e2ncia e a vida adulta para constituir um universo liter\u00e1rio pr\u00f3prio, marcado por quest\u00f5es de identidade, pertencimento, diversidade e rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o se trata apenas de ampliar uma faixa do mercado editorial, mas de reconhecer que diferentes momentos da forma\u00e7\u00e3o exigem narrativas capazes de dialogar com experi\u00eancias igualmente distintas.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o, ilustra\u00e7\u00e3o e bibliodiversidade completam esse quadro. No universo da literatura infantil, o ilustrador tamb\u00e9m narra e o tradutor constr\u00f3i pontes entre culturas. Bibliodiversidade, por sua vez, n\u00e3o significa apenas multiplicar o n\u00famero de t\u00edtulos dispon\u00edveis, mas assegurar a circula\u00e7\u00e3o de diferentes idiomas, culturas, tradi\u00e7\u00f5es narrativas e formas de representar a inf\u00e2ncia. Em sociedades cada vez mais plurais, ampliar o repert\u00f3rio liter\u00e1rio significa tamb\u00e9m ampliar as possibilidades de compreens\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o dialoga de maneira particular com a realidade brasileira. O pa\u00eds construiu, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, uma das mais s\u00f3lidas tradi\u00e7\u00f5es de literatura infantil e juvenil, com autoras como Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Ruth Rocha, entre tantos outros escritores, ilustradores e tradutores. Uma literatura que ganhou for\u00e7a justamente quando deixou de tratar a inf\u00e2ncia apenas como territ\u00f3rio de hist\u00f3rias edificantes e passou a incorporar conflitos, desejos, medos, diferen\u00e7as e ambiguidades pr\u00f3prios da experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>O contraste com alguns epis\u00f3dios recentes no Brasil \u00e9 inevit\u00e1vel. Obras v\u00eam sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas n\u00e3o por sua qualidade liter\u00e1ria, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou vis\u00f5es de mundo. \u00c9 leg\u00edtimo discutir adequa\u00e7\u00e3o et\u00e1ria, crit\u00e9rios pedag\u00f3gicos e media\u00e7\u00e3o da leitura. Outra coisa \u00e9 pretender proteger crian\u00e7as eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convic\u00e7\u00f5es dos adultos.<\/p>\n<p>Nesse ponto, Ottawa oferece uma invers\u00e3o reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda n\u00e3o est\u00e3o sendo escutadas. S\u00e3o movimentos em dire\u00e7\u00f5es opostas. Um reduz o repert\u00f3rio; o outro procura ampli\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas liter\u00e1ria ou pedag\u00f3gica. \u00c9 tamb\u00e9m pol\u00edtica. Uma sociedade democr\u00e1tica n\u00e3o se constr\u00f3i oferecendo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examin\u00e1-las criticamente e conviver com a diverg\u00eancia. O oposto do cancelamento n\u00e3o \u00e9 a concord\u00e2ncia. \u00c9 a conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das fam\u00edlias e dos educadores a responsabilidade sobre a forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Significa reconhecer a diferen\u00e7a entre media\u00e7\u00e3o e interdi\u00e7\u00e3o. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o di\u00e1logo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.<\/p>\n<p>A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a forma\u00e7\u00e3o de leitores. Ela participa da forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.<\/p>\n<p>\u201cEscutar as vozes uns dos outros\u201d recupera, mais de setenta anos depois, a intui\u00e7\u00e3o de Jella Lepman. Livros n\u00e3o eliminam conflitos nem fazem desaparecer diverg\u00eancias. Podem, entretanto, ensinar algo indispens\u00e1vel \u00e0s sociedades democr\u00e1ticas: o outro n\u00e3o precisa pensar como n\u00f3s para ter o direito de contar sua hist\u00f3ria. Antes de aprender a conviver com a diferen\u00e7a, \u00e9 preciso reconhecer sua exist\u00eancia. E estar disposto a ouvi-la.<\/p>\n<p>_____________<\/p>\n<p><strong><em>Hubert Alqu\u00e9res<\/em><\/strong><em> \u00e9 vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro (CBL) e curador do Pr\u00eamio Jabuti. <strong>Karine Pansa<\/strong> \u00e9 diretora da C\u00e2mara Brasileira do Livro (CBL).<br \/>\n<\/em><em>Participaram do 40\u00ba Congresso do International Board on Books for Young People (IBBY), realizado em Ottawa, Canad\u00e1, entre 6 e 9 de agosto de 2026.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate internacional sobre literatura infantil mostra que formar leitores tamb\u00e9m \u00e9 prepar\u00e1-los para conviver com a diferen\u00e7a. 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